Irmãos Coen de volta à velha forma.
“Onde os Fracos Não Têm Vez”, um retrato áspero e cruel dos EUA.

Javier Bardem e o corte de cabelo que, segundo ele, espanta o mulherio. Foto: www.nocountryforoldmen.com
Ver um grande filme dos irmãos Coen é sempre um prazer para qualquer cinéfilo que se preze. Autores de fitas memoráveis como “Gosto de Sangue”, “Arizona Nunca Mais”, “Barton Fink” e “Fargo”, os Coen estavam devendo um filme à altura de sua obra desde este último, exibido há pouco mais de uma década. “Onde os Fracos Não Têm Vez” é mais uma tradução um tanto equivocada do original, no caso “No Country For Old Men”, mesmo título do livro lançado em 2005 e escrito por Cormac McCarthy. Utilizando o inteligente recurso de transpor a ação para outra época – no caso, 1980 – a narrativa aborda o então nascente problema do tráfico de drogas na fronteira entre o México e o estado do Texas. Foi, inclusive, a partir da década seguinte que o Brasil se tornou uma das rotas preferencias do tráfico, já que as fronteiras norte-americanas passaram a ser ostensivamente patrulhadas.
O cinema dos Coen não se fixa num único gênero e não se rende aos padrões estabelecidos. Mesmo um filme forte e violento como este tem lá suas pitadas de humor – ainda que negro, na maioria dos casos – e ironia. Tudo começa quando Llewelyn Moss (Josh Brolin, caladão, muito bem no papel), um veterano do Vietnã que vive de bicos e da caça de animais selvagens, atira num cervo e o animal não morre, consegue fugir. Chegando mais perto, vê um rastro de sangue, de um lado, e um pitbull negro, mancando, de outro. Caminha mais alguns passos e, ladeira abaixo, depara-se com veículos abandonados e corpos baleados estendidos pelo chão. Não demora a encontrar um carregamento de heroína e um mexicano, ainda vivo, numa caminhonete. Mais adiante, outro mexicano, já morto, e uma mala recheada de dólares. Ocorre que, ao surrupiar uma bufunfa dessas, é muito raro o sujeito sair ileso. É aí que entra em cena Anton Chigurh, em mais uma interpretação visceral de Javier Bardem (detalhe: depois de se olhar no espelho com aquele corte de cabelo - veja a foto acima - Bardem exclamou: “Meu Deus! Vou ficar sem transar pelos próximos dois meses!”). Assassino profissional, louco e obstinado, Anton sai à caça de Llewelyn. Assim como o Duas Caras das histórias do Batman, a dualidade de Anton se expressa na sua mania de jogar Cara ou Coroa para decidir a sorte de suas vítimas.
Anton tem a peculiaridade de usar uma arma empregada para abater bois que lança projéteis metálicos impelidos por ar comprimido, o que rende ótimas cenas. O rastro de sangue coloca em seu encalço o cowboy Ed Tom Bell (o grande Tommy Lee Jones), um xerife à beira da aposentadoria que não encontra mais espaço nesta nova realidade. Tommy Lee Jones é um ator da estirpe de outros nomes notáveis do cinema, como Lee Marvin e Clint Eastwood, que mesclam aspereza e sensibilidade em doses certas. Sua perplexidade com os tempos que se anunciam fica evidente num diálogo travado com o velho xerife que o antecedeu, Ellis. Quando afirma que não se conforma com tanta violência, o velho lhe responde: “Isso tudo não é novidade. Esta terra é dura com as pessoas, você não pode parar o que está por vir. Achar que as coisas vão esperar por você é pura vaidade.” A escalada de violência prossegue, o que o obriga Llewelyn a sair de casa, numa cena com sua esposa que diverte o público:
Llewelyn: “Se eu não voltar, diga à minha mãe que eu a amo”.
Carla Jean: “Mas sua mãe já morreu, Llewelyn.”
Llewelyn: “Bom, entâo eu mesmo direi isso a ela.”
Além desta, poderia ficar aqui enumerando cenas saborosas, mas não sou um desmancha-prazeres. Faltou mencionar a participação - como sempre, marcante - de Woody Harrelson no papel de Carson Wells, um dos vários escroques que surgem durante a trama. Woody, que tem sotaque texano de nascença, está muito à vontade como o malandro que segue a trilha de Anton Chigurh e garante alguns dos bons momentos da história. O filme, como escrevi na abertura deste texto, é um retrato sem concessões dos EUA de hoje. Um país assolado pela violência, armado até os dentes e assustado com tudo o que é novo, estrangeiro ou lhe parece estranho. Ou seja, um país “inadequado para os velhos”, como reitera o título original. Independente de Oscar, Cannes ou seja lá o que for, é sério candidato a melhor filme do ano. Um elenco afiado, bem dirigido, com uma fotografia que retrata muito bem a aridez e amplitude daquelas paragens. A trilha apenas pontua algumas cenas e, em certos momentos, lembra a gaita usada por Ennio Morricone na trilha de “The Good, The Bad and The Ugly”, de Sergio Leone. É como um mau agouro, um abutre que sobrevoa a carniça à espera do momento certo. Vale a pena apreciá-lo na tela grande, como convém. Para maiores detalhes e curiosidades, visite:
http://www.imdb.com/title/tt0477348/ e http://www.nocountryforoldmen-themovie.com/
Escrito por Alessandro Pinesso às 12h28
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